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sábado, 11 de outubro de 2014


Não sou mais um menino!
Ricardo Martins

É verdade, realmente não sou mais um menino, as pernas e o Tempo lembram-me isso a cada instante em que esqueço e acho que ainda sou um guri! Todavia ainda me sinto assim, apesar de não mais poder passar as tardes ensolaradas em meu querido Rio de Janeiro, a correr de um lado ao outro, pulando muros pra chupar manga e romã, ou nadar no açude da fábrica de tecidos, brincar no bonde, jogar pelada nas ruas e soltar pipa! Ah! E no dia de São Cosme e São Damião ir à busca dos doces distribuídos na vizinhança, 
certamente era dia de bronca e de muita sujeira pelo corpo todo, mas valia a pena, se valia!

Saudades daqueles tempos em que eu ia direto para rua, após fazer os deveres da escola e sumia como diziam minha Vó e minha Mãe. Realmente era assim, eu de repente estava no alto de uma frondosa árvore a comer jamelão, babando e lambendo os lábios e sujando a roupa de roxo, o “sermão” era certo, mas nada me fazia sair dali!

Ah! Como eram gostosas minhas tardes de criança, feliz, livre, despreocupado, independente a fazer o que queria, enfim, uma vida saudável.

Muitas vezes as traquinagens davam lugar aos sonhos, eu viajava literalmente e ia a lugares jamais pensados ou conhecidos, apenas queria ir até lá e ajudar as pessoas a serem felizes, pois ainda bem pequeno aprendi a dar importância e a proteger o outro, aquele mais frágil, mais simples, mais humilde e via de regra, discriminado e injustiçado, isso acendia em mim a chama da justiça.

Sim, com certeza, fui um garoto corajoso, valente, destemido e até mesmo atrevido quando se tratava de proteger alguém de uma injustiça ou alguém que havia sofrido um ato de desrespeito.

Ah! Também já era atrevido com as “gatinhas”, pois sempre a mais linda me chamava a atenção e eu me encantava... Isso sempre me atraiu; o desafio, o instigar, enfim, e elas sempre me ensinaram tudo, sobre elas mesmas por isso desisti depois de adulto de entende-las e sim apenas admirá-las.

Eu ainda guri, adorava sonhar, já refletia e queria respostas:

Por que isso se dá? O que fazemos aqui e como chegamos aqui? Que viemos fazer aqui? Enfim, “viajava” e queria entender as coisas, contudo sempre admirando o belo, as belezas da Vida, a Natureza, as coisas simples, o mar, as estrelas, a lua e o sol! As pessoas me atraíam.

Quantas noites eu sentava na soleira da porta e contemplava as estrelas admirado, aprendi o nome de muitas, e também conversava com a lua! Na real eu já conversava a meu modo, com DEUS! Como faço até os dias de hoje. Era ali que sonhava as mais loucas e pretensiosas aventuras no futuro.

Também foi em criança que aprendi a importância de ser educado, gentil, atencioso, humilde, respeitador, enfim, aprendi muito com os meus, meu pai era um cavalheiro, meu avô um sábio, um trabalhador, um vencedor, aprendi também com as pessoas e também na rua, aonde havia códigos e limites, aprendi a entrar e sair de todos os lugares, desde o mais simples e limpo, ao mais requintado e não tão bem frequentado, mas sem perder jamais a dignidade e deixar-me ser ofendido por alguém de forma vazia e mentirosa. Quando ofendido ou mal tratado, isso me enchia de brio e eu queria briga, e era e sempre fui bom de briga, na mão como se dizia a época tinha que ser bom ou mais de dois... rsss  

Ah! Aquele menino também aprendeu a perceber os hipócritas, falsos moralistas e racistas, pervertidos, enfim, as pessoas vazias que nada mereciam e ou merecem da Vida.

Realmente não sou mais aquele moleque travesso que desde cedo admirou a Vida, seus mistérios e magias, e a ela se entregava a brincar sem parar, sem em nada pensar, enfim livre como um pássaro selvagem, contudo ainda trago dentro de mim os mesmos sonhos, desejos e vontades.

Olho-me diariamente no espelho e vejo dentro de mim aquele garoto que ama a Vida acima de tudo, talvez o olhar não seja mais o mesmo, um pouco mais triste e decepcionado, muitas perdas, pessoas, enfim, entretanto o sorriso é o mesmo, é aquele que todos os dias bem cedinho agradecia e sorria para a Vida e para o novo dia! 

Não sou mais “aquele menino” que corria e pulava muros e estendia seus murros naqueles que mereciam. Minhas caimbras e dores físicas que o digam. Contudo, sou ainda, sim, felizmente, um menino, graças a DEUS, um guri, que crê na Vida, admira a Vida, e antes de tudo a respeita.

Sabe, gente? Na real serei sempre um eterno menino! Ainda bem!




Um comentário:

VeraProfessora disse...

Que texto mais bucólico e mais interessante! Ah, um texto tocante, diferente dos outros, uma crônica saudosista e cheia do purismo das boas coisas de uma vida de verdade!

PARABÉNS, Ricardo, parabéns!